sábado, 15 de outubro de 2011

Psicologia de Massas do Fascismo – Wilhelm Reich

        Os revolucionários colocam em dúvida as idéias de Marx sobre os processos sociais.  Motivo: o desenvolvimento do fascismo, sobrepondo-se ao movimento socialista revolucionário.
      Uma nova prática revolucionária requer uma análise objetiva do movimento dos trabalhadores e do fascismo. O marxismo pressupõe a prática, cujo não conhecimento é sempre “explicado”. Mas a confirmação da prática, não existe.
      Era necessário um movimento subjetivo (ideologia das massas / perceber a estrutura do caráter das massas), não bastavam reclamações e o enaltecimento da fome e das necessidades, outros com a igreja, já o faziam.
     Para Marx é preciso “ir à raiz das coisas”, perceber as contradições. Só assim podemos vencer os movimentos reacionários.
    Paradoxo:  milhões de trabalhadores de países industrializados estavam na miséria e, ao contrário do esperado, ocorre o crescimento do fascismo e o retrocesso do movimento dos trabalhadores.

Estrutura Econômica e Ideológica na Alemanha
A falta de consciência de responsabilidade social ou “consciência de classe” como diria Marx, implica no agravamento da posição social do fascismo (movimento de reação política).

Como a Psicologia de Massa vê o problema
A situação econômica e a situação ideológica não coincidem.
Consciência política


     Em alguns casos a situação econômica coincide com a ideologia. Ex: quando os trabalhadores fazem greve por melhores salários ou alguém rouba para saciar a fome, ambos sofrem e agem por pressão econômica.
      A psicologia reacionária dará explicações irracionais para esses fatos. A psicologia social irá se preocupar em buscar explicações sobre por quais  motivos nem todos roubam para comer ou fazem greve por serem explorados. Porque alguns resistem e outros não?
     O que justifica a contradição ou as condutas irracionais das massas, para a psicologia de massa, é o que se chama de tradição. O que precisamos descobrir não é o que faz a massa AGIR, mas o que a INIBE. Isso é resultado do desconhecimento das ideologias ou da estrutura de caráter das massas (tradições).
     É importante reconhecer que o trabalhador médio trás em si uma esta contradição: sua estrutura psíquica resulta tanto de sua situação social (o que até poderia vir a ser revolucionário) como da atmosfera da sociedade.
      A questão para Reich é justamente compreender a clivagem que se dá entre a ideologia e a economia. A contradição entre as tendências revolucionárias e as tendências reacionárias (misticismo / forças psíquicas conservadoras / tradição).
A Função Social da Repressão Sexual
     Porque os homens se submetem a exploração e a humilhação moral
    Segundo Freud o código moral não tem origem divina, provém dos pais ou cuidadores, já na infância.
    Analisou a sociedade como se esta fosse um indivíduo e nos trouxe a possibilidade de compreender melhor a realidade, visto que tornou possível a compreensão da natureza da estrutura do homem.
    A repressão e o recalcamento sexual não são uma questão da cultura, mas de ordem social. Surge com o patriarcado autoritário e com as divisões de classe. Assume-se assim a família e os casamentos patriarcais. A religião nega o sexo e os desjos são erradicados. Acaba-se a pouca felicidade que ainda havia.
   A família patriarcal autoritária funciona como uma pequena fábrica onde as estruturas e as ideologias do Estado são moldadas, depois, vem a religião.
   A criança, reprimida sexualmente, e portanto com o impulso vital associado ao medo, deve aprender a se adaptar, como um ensaio para o que virá depois. É assim produzida a estrutura autoritária no homem.
   A mentalidade reacionária, fruto deste processo resulta em conservadorismo e medo de liberdade. As tradições gritam mais alto que as pressões econômicas.
   Logo, o problema da psicologia de massas é a ativação da maioria passiva da população, que contribui com o movimento reacionário. É preciso eliminar as inibições que impedem o desenvolvimento do desejo de liberdade, proveniente da situação econômica e social.
   O êxito sobre a psicologia de massas se dá através de uma ideologia que encontre eco em uma ampla camada de indivíduos, através da ênfase sistemática e constante de um objetivo final.
   Entender a psicologia de massas e o que as levam a agir como agem é a questão.

Alice Alfaro

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Nazismo e a Psicologia Analítica de Jung


   Jung, ao refletir sobre as conseqüências terríveis da primeira grande guerra para a psiqué coletiva do povo europeu, procura também as causas da destrutividade e do comportamento selvagem de culturas tão sofisticadas como a alemã, por exemplo.
Neste ensaio Jung diz textualmente: “o cristianismo dividiu o barbarismo germânico em sua metade inferior e superior e conseguiu assim - pela repressão do lado mais escuro - domesticar o lado mais claro e torná-lo apropriado à cultura. Enquanto isso, porém, a metade inferior está esperando a libertação e uma segunda domesticação. Mas até lá, continua associada aos vestígios da pré-história, ao inconsciente coletivo, o que significa uma peculiar e sempre crescente ativação do inconsciente coletivo. Quanto mais a visão cristã do mundo for perdendo sua autoridade incondicional, mais perceptivelmente a “besta loira” se agitará em sua prisão subterrânea, ameaçando sair, e assim, trazendo conseqüências catastróficas. Este fenômeno acontece no indivíduo como revolução psicológica, mas pode também manifestar-se sob a forma de fenômeno social.”
   
    O problema do nacional-socialismo e da psicologia coletiva alemã é extensamente tratado por Jung em Wotan, escrito em 1936, a psicose coletiva que já começava a se configurar em território alemão é descrita a partir da imagem arquetípica de Wotan, deus nórdico pagão dos germânicos, das tempestades, da efervescência, da inspiração e da guerra, entre outros atributos.
Jung interpretou o nacional socialismo como fenômeno patológico, de identidade. Uma irrupção do inconsciente coletivo. "Wotan” havia tomado posse da alma do povo alemão. Jung traça o paralelo entre Wotan redivivo e o fenômeno nazista, onde Wotan é uma personificação de forças psíquicas corresponde a "uma qualidade, um caráter fundamental da alma alemã, um "fator" psíquico de natureza irracional, um ciclone que anula e varre para longe a zona calma onde reina a cultura". Os fatores econômicos e políticos pareceram a Jung insuficientes para explicar todos os espantosos fenômenos que estavam ocorrendo na Alemanha. Wotan reativado no fundo do inconsciente, Wotan invasor, seria explicação mais pertinente.
   
   Procurando caracterizar dentro do referencial arquetípico a nuvem obscura que já toldava os céus europeus, Jung lembra neste texto que quando há o domínio da massa, o indivíduo cessa de comportar-se de forma adequada, regida pelos cânones que até então orientavam sua consciência. Dominam estão os arquétipos do inconsciente coletivo, com conseqüências imprevisíveis.
   
    Na cultura atual, a sofisticada noção de códigos legais e de ética é sugada pela psicose de massa, que tudo anula, transformando os indivíduos em serviçais de alguma força arquetípica do inconsciente coletivo, seja o mito da raça superior, ou do herói, cuja figura arquetípica foi projetada no Führer ou no Duce Benito Mussolini.
Quando toda a nação está desagregada social e economicamente, como a Alemanha após a primeira grande guerra, ela se torna especialmente suscetível a todo tipo de projeção arquetípica do tipo messiânico e soteriológico. Como escreve Jung: “Não foi fácil contemplar como toda a Alemanha respirou aliviada quando um psicopata megalomaníaco disse: ’Eu assumo a responsabilidade’ “.

   Na verdade este é o diagnóstico dado a Hitler, além de ter o líder nazista acentuados traços de pseudologia fantástica, isto é, uma marcante mitomania, com crença absoluta em suas próprias mentiras. Entretanto, se esta é a personalidade capaz de comover e liderar toda uma nação, é porque ela encarnou forças do inconsciente coletivo deste povo, pelo menos em dado momento histórico.
  
    Na psicopatia, assim como na histeria, Jung nos lembra, ocorre uma enorme dissociação da Sombra, uma cisão que leva fatalmente a constantes e perigosas atuações. “E quando não é mais possível negar o mal, surge o ’super-homem e o herói’ que se enobrece pela envergadura de suas metas”.
Jung procura entender todos estes fenômenos que afetam o homem civilizado ocidental, usando mesmo o parâmetro transcultural, a partir da convivência que teve com povos assim chamados primitivos. Na verdade, os atos colonialistas de agressão que o homem branco chamado civilizado cometeu contra os povos pré-letrados são inumeráveis.



    Psiquiatra suíço, nasceu no ano de 1875, em Kesswil. Seu pai era um pastor protestante, e, sua vivência, aguçou o pensamento analítico de Jung acerca da espiritualidade. Graduou-se em medicina em 1902, pelas universidades de Basiléia e Zurich, teve amplo conhecimento cultural e intelectual. Jung elaborou uma variação sobre a obra de Sigmund Freud e a psicanálise, interpretando os distúrbios mentais como uma forma patológica de procurar a auto-realização pessoal e espiritual.


Candice Mollona