Jung, ao refletir sobre as conseqüências terríveis da primeira grande guerra para a psiqué coletiva do povo europeu, procura também as causas da destrutividade e do comportamento selvagem de culturas tão sofisticadas como a alemã, por exemplo.
Neste ensaio Jung diz textualmente: “o cristianismo dividiu o barbarismo germânico em sua metade inferior e superior e conseguiu assim - pela repressão do lado mais escuro - domesticar o lado mais claro e torná-lo apropriado à cultura. Enquanto isso, porém, a metade inferior está esperando a libertação e uma segunda domesticação. Mas até lá, continua associada aos vestígios da pré-história, ao inconsciente coletivo, o que significa uma peculiar e sempre crescente ativação do inconsciente coletivo. Quanto mais a visão cristã do mundo for perdendo sua autoridade incondicional, mais perceptivelmente a “besta loira” se agitará em sua prisão subterrânea, ameaçando sair, e assim, trazendo conseqüências catastróficas. Este fenômeno acontece no indivíduo como revolução psicológica, mas pode também manifestar-se sob a forma de fenômeno social.”
O problema do nacional-socialismo e da psicologia coletiva alemã é extensamente tratado por Jung em Wotan, escrito em 1936, a psicose coletiva que já começava a se configurar em território alemão é descrita a partir da imagem arquetípica de Wotan, deus nórdico pagão dos germânicos, das tempestades, da efervescência, da inspiração e da guerra, entre outros atributos.
Jung interpretou o nacional socialismo como fenômeno patológico, de identidade. Uma irrupção do inconsciente coletivo. "Wotan” havia tomado posse da alma do povo alemão. Jung traça o paralelo entre Wotan redivivo e o fenômeno nazista, onde Wotan é uma personificação de forças psíquicas corresponde a "uma qualidade, um caráter fundamental da alma alemã, um "fator" psíquico de natureza irracional, um ciclone que anula e varre para longe a zona calma onde reina a cultura". Os fatores econômicos e políticos pareceram a Jung insuficientes para explicar todos os espantosos fenômenos que estavam ocorrendo na Alemanha. Wotan reativado no fundo do inconsciente, Wotan invasor, seria explicação mais pertinente.
Procurando caracterizar dentro do referencial arquetípico a nuvem obscura que já toldava os céus europeus, Jung lembra neste texto que quando há o domínio da massa, o indivíduo cessa de comportar-se de forma adequada, regida pelos cânones que até então orientavam sua consciência. Dominam estão os arquétipos do inconsciente coletivo, com conseqüências imprevisíveis.
Na cultura atual, a sofisticada noção de códigos legais e de ética é sugada pela psicose de massa, que tudo anula, transformando os indivíduos em serviçais de alguma força arquetípica do inconsciente coletivo, seja o mito da raça superior, ou do herói, cuja figura arquetípica foi projetada no Führer ou no Duce Benito Mussolini.
Quando toda a nação está desagregada social e economicamente, como a Alemanha após a primeira grande guerra, ela se torna especialmente suscetível a todo tipo de projeção arquetípica do tipo messiânico e soteriológico. Como escreve Jung: “Não foi fácil contemplar como toda a Alemanha respirou aliviada quando um psicopata megalomaníaco disse: ’Eu assumo a responsabilidade’ “.
Na verdade este é o diagnóstico dado a Hitler, além de ter o líder nazista acentuados traços de pseudologia fantástica, isto é, uma marcante mitomania, com crença absoluta em suas próprias mentiras. Entretanto, se esta é a personalidade capaz de comover e liderar toda uma nação, é porque ela encarnou forças do inconsciente coletivo deste povo, pelo menos em dado momento histórico.
Na psicopatia, assim como na histeria, Jung nos lembra, ocorre uma enorme dissociação da Sombra, uma cisão que leva fatalmente a constantes e perigosas atuações. “E quando não é mais possível negar o mal, surge o ’super-homem e o herói’ que se enobrece pela envergadura de suas metas”.
Jung procura entender todos estes fenômenos que afetam o homem civilizado ocidental, usando mesmo o parâmetro transcultural, a partir da convivência que teve com povos assim chamados primitivos. Na verdade, os atos colonialistas de agressão que o homem branco chamado civilizado cometeu contra os povos pré-letrados são inumeráveis.
Psiquiatra suíço, nasceu no ano de 1875, em Kesswil. Seu pai era um pastor protestante, e, sua vivência, aguçou o pensamento analítico de Jung acerca da espiritualidade. Graduou-se em medicina em 1902, pelas universidades de Basiléia e Zurich, teve amplo conhecimento cultural e intelectual. Jung elaborou uma variação sobre a obra de Sigmund Freud e a psicanálise, interpretando os distúrbios mentais como uma forma patológica de procurar a auto-realização pessoal e espiritual.
Candice Mollona

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